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Marcos Silva: um comentário sobre as propostas dos anos 80 e as discussões de hoje

“Aproveito para fazer um breve comentário sobre as Propostas dos anos 80 e nossas discussões de hoje. Como historiadores, o contato com aqueles documentos é muito importante sempre. Vivi o processo por dentro: eu e Dea Ribeiro Fenelon éramos assessores da Equipe responsável pela redação da Proposta Curricular de História. Reler aqueles documentos, hoje, é entrar em contato com conteúdos, métodos, projetos políticos – o mais importante, a meu ver, era tratar o professor como pensador autônomo. Mas é também interpretar um processo político muito difícil, marcado por extrema violência do governo estadual, da Imprensa e… de setores profissionais de História. Silenciamentos foram impostos, vozes foram legitimadas em detrimento de outras…

Tudo isso aconteceu há muito tempo, mais de vinte anos atrás. Não vejo sentido de reativar discussões que tiveram razão de ser num momento político muito específico – fim da ditadura, disputas entre diferentes projetos para o pós-ditadura, disputas entre diferentes unidades acadêmicas, disputas entre diferentes linhas de interpretação da História, anúncio de fim da História, disputas por fatias de mercado – autores de livros didáticos e apostilas, via de regra, trataram as Propostas com especial fúria.
Não tenho o menor interesse em reviver aquelas discussões nem vejo mesmo condições históricas de retomá-las como ocorreram. Lembro, todavia, que vivemos outros problemas políticos, educacionais, acadêmicos, culturais em sentido amplo.

Discutir aquelas propostas, em meu entendimento, não é rememorar uma Idade de Ouro nem uma era de barbárie. Nosso presente, onde a discussão se faz, está cheio de outros problemas, incluindo desqualificação intelectual de professores por péssimas apostilas pré-fabricadas, vendidas a preço de ouro para os órgãos públicos, enquanto os professores ganham salários m iseráveis e são condenados à reprodução da reprodução da reprodução (alguns oponentes das propostas dos anos 80 defendiam candidamente o direito à reprodução, devem estar muito felizes com o reino das apostilas a serem aplicadas mecanicamente pelos professores).
A discussão sobre o ensino de história está entre nós, aqui e agora, junto com o debate sobre políticas educacionais, salários dignos, direito ao saber como produtor. Podemos aprender com as lutas do passado. Não podemos pretender reencená-las fora do contexto em que ocorreram – somos historiadores!”

Abraços a todos,
Marcos Silva
Professor Titular de Metodologia da História na FFLCH/USP, autor de “História – O prazer de Ensino e Pesquisa”, Ed. Brasiliense, e parceiro de Selva Guimarães

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