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Nayara Galeno fala sobre Delgado de Carvalho e o ensino da História

Em maio de 2011 ocorreu a defesa de dissertação de Nayara Galeno do Vale, orientada pela professora doutora Marieta de Moraes Ferreira, cujo título é “Delgado de Carvalho e o ensino da História: livros didáticos em tempos de reformas educacionais (1931-1946)”. A professora da rede pública do Rio de Janeiro e atual professora da Faculdade de Formação de Professores da UERJ, foi orientada pela professora Marieta de Moraes, na área de História Social, pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. Nayara contou ao site do Grupo de Pesquisa Oficinas de História um pouco sobre sua pesquisa. Confira:
 

Apresentação da dissertação:

“A dissertação teve como objeto o ensino de História nos anos 1930 e 1940. Para dar conta desse objeto, analisei a trajetória de Delgado de Carvalho e seus livros didáticos para o ensino de História publicados nos anos 1930 e 1940. Para isso, foram selecionados como fontes os livros Historia Geral: 1ª série secundária e bases para o desenvolvimento nas séries seguintes, publicado em 1935 em coautoria com Wanda de M. Cardoso, Historia Antiga e Medieval para a Primeira Série Ginasial e Historia Moderna e Contemporânea para a Segunda Série Ginasial, publicados em 1945 e 1946 respectivamente.

Busquei assim, investigar, por meio dessas obras, como o autor construiu suas reflexões teórico-metodológicas sobre o ensino da História. Por meio da descrição da materialidade dos livros, da análise acerca da adequação das obras aos programas e diretrizes para o ensino de História vigentes e da comparação com outras obras didáticas em circulação na época, investiguei as especificidades dos livros didáticos publicados por Delgado de Carvalho nas décadas estudadas e seus posicionamentos a respeito do ensino da disciplina.”

 

Discussões:

“O trabalho segue a trilha aberta por outros que voltaram os seus olhares para os saberes e referências que informam as práticas de nossa disciplina. Esses trabalhos têm se questionado sobre o lugar ocupado (ou não) por determinados autores e obras, publicadas no início do século XX. Assim, a vida e a obra de intelectuais “esquecidos” ou minimizados até então pela historiografia, como João Ribeiro, Oliveira Lima, Manoel Bomfim, Octavio Tarquínio de Sousa, Rocha Pombo, entre outros, têm sido objeto de pesquisas que mostram a diversidade e a abundância da produção historiográfica brasileira nesse período.

Seguindo a linha dos trabalhos que consideraram aspectos das trajetórias dos autores acima mencionados, partimos da premissa de que, nos anos 1930 e 1940, a profissionalização da pesquisa histórica possui vínculos estreitos com a sua divulgação e ensino, podendo, tais processos, serem executados por um mesmo indivíduo, que publicava livros, era professor e escrevia também em jornais e revistas.

Intrigou-me o fato de Delgado de Carvalho reportar-se muitas vezes, à sua experiência docente para justificar sua autoridade no que diz respeito ao ensino de História. Chamou-me também a atenção, o fato de o autor, ao rememorar sua trajetória profissional em uma conferência proferida no IHGB, já nos anos 1970, autodenominar-se não como historiador, mas sim como um “pardal de Clio”. A analogia é feita porque, tal como os pardais, os professores “vão buscar nos ninhos de pesquisadores desprevenidos os elementos necessários à suas lições e a seus livros didáticos”. Busquei, por meio desses questionamentos, escrever, não uma biografia de Delgado de Carvalho, mas, reconstituir sua trajetória intelectual, conferindo destaque às escolhas por ele efetuadas e aos recursos que ele utilizou ao longo de sua carreira profissional, particularmente no que diz respeito ao ensino da disciplina História.

Para reconstituir a trajetória de Delgado de Carvalho optei por dialogar com as marcas que ele mesmo escolheu para constituir a forma pela qual seria lembrado. Por meio de sua trajetória procurei conhecer melhor o autor, compreender suas escolhas e as leituras que fazia de seu próprio tempo. Tais leituras modelaram, de alguma maneira, sua percepção acerca da história e da função de seu ensino.

Essas questões me levaram à produção didática para o ensino de História sob a ótica de Delgado. Ainda que tenha localizado alguns escritos sobre a definição e a função do ensino da História, percebi que a maior parte da sua produção relacionada a esse campo de conhecimento era composta por livros didáticos e isso forneceu indícios para investigar o epíteto de “pardal de Clio” que o autor confere a si mesmo e a outros autores de livros didáticos e professores de História.”

 

Contribuições:

“Em primeiro lugar, a consideração de que devemos atentar para a historicidade de nossa própria disciplina, que representa sua própria trajetória como linear e orientada para a busca da cientificização. É comum acreditar-se que a criação dos cursos de pós-graduação em História nos anos 1970 possibilitou a profissionalização do historiador. Esse pensamento pode levar-nos a desconsiderar o fato de que anteriormente, nos primeiros cursos de graduação em História, criados nas décadas de 1930 e 1940, se formaram os primeiros profissionais da área. Esses cursos eram voltados, sobretudo, para a formação de professores secundários. A constituição da História como saber ensinável resultou de disputas que mobilizavam interesses e conhecimentos diversos.

Delgado de Carvalho, por exemplo, transitava por diversos campos em uma época em que as fronteiras entre esses campos não estavam delimitadas. O autor foi capaz de se mover pelos campos da Geografia, da História, das Ciências Sociais e da Educação, uma vez que tais tão campos não demandavam uma formação universitária específica como forma de acesso. Ao investigar sua trajetória, pretendíamos conhecer melhor o contexto de produção de seus livros e a participação nos “lugares de sociabilidade” nos quais estava inserido. Buscamos compreender, também, o significado que Delgado atribuía à História em sua trajetória intelectual e à escrita de livros didáticos para o ensino da disciplina. Em nosso entender, estudar o pensamento e a atuação de Delgado de Carvalho é importante para entendermos a constituição da História como disciplina escolar no Brasil em uma época em que as fronteiras entre as disciplinas se firmava.

Em segundo lugar, achei pertinente pensar os livros didáticos em função das possibilidades de que o autor dispunha naquele momento e da posição que ocupava no interior do campo do ensino de História. Consideramos, assim, as “falas” dos próprios livros didáticos sem deixar, entretanto, de inseri-los em um contexto de produção e em um diálogo com outras produções didáticas que se destinavam ao mesmo público.

Obviamente, não esgotei as possibilidades em torno de suas obras dedicadas ao ensino de História. Os livros didáticos, utilizados nessa pesquisa, podem servir de fontes a outros estudos que busquem compreender melhor a sua recepção e os seus usos. Outra possibilidade seria a realização de trabalhos comparativos entre os livros didáticos de Delgado de Carvalho e os livros franceses nos quais o autor busca inspiração. Ainda um caminho possível, seria a comparação da obra de Delgado com as de outros autores de livros didáticos que circularam na mesma época, tais como as de Joaquim Silva, Jonathas Serrano ou João Ribeiro.

O arquivo de Delgado de Carvalho, depositado no IHGB – embora não se encontre disponível ao público por não estar organizado – pode servir, no futuro, a outros estudos que se debrucem sobre a trajetória do autor e sobre sua atuação como professor. O acervo contém cadernos, planos de cursos, avaliações, notas de aula e provas de livros que, à primeira vista, podem parecer apenas papéis velhos, mas, se examinados para além das aparências podem nos dizer algo sobre a prática docente do autor.

Esse aspecto, no trabalho que ora realizamos, foi apenas tangenciado por meio da imagem que Delgado construiu para si mesmo e da “fala” de seus livros já impressos, portanto, expurgados, pelo corpo de profissionais das editoras responsáveis pela sua publicação, das marcas do trabalho do professor. Essas marcas possivelmente darão margem para contar muitas outras histórias sobre o “pardal de Clio.”

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